Você prefere aprender a cair ou levantar? Uma experiência com Sirsasana Levei alguns anos para conseguir me equilibrar em sirsasana (postura invertida sobre a cabeça). De jeito nenhum, nunca foi fácil. Há alguns asanas que nos acometem, outros que nos envolvem, há aqueles que nos acontecem e finalmente os que nascem de dentro. Sirsasana, para mim, no passado, foi um acometimento. Só depois que aprendi a cair dele, o asana finalmente nasceu. Explico melhor esta experiência.
Lá por volta do aniverário de seu primeiro ano de vida, a gente percebe que nossos filhos vão começar a andar. Mas eles só caem. Seguram nossas mãos, erguem os joelhos, dobram-nos e caem. Depois seguramos seus joelhinhos com seus pés em nosso colo, eles riem a valer, se atiram para trás e caem. Aí aprendem a se segurar em qualquer canto de qualquer móvel ou pedaço de calça que lhes apareça pela frente; esticam-se, erguem-se, ficam em pé e – pluft! −, caem. Felizmente, usam fraldas. Felizmente, caem de bumbum e não caem de cabeça porque a natureza, se não nos entrega a bula, sabe o que faz. Aí, do nada, como quem decide se levantar do sofá para ir tomar uma água na cozinha, estes bebês saem andando − assim, deixando-nos embasbacados, sem sabermos se gritamos, se os seguramos, se ficamos por perto para garantir que não caiam ou se corremos pegar a câmera. Eles começam a andar. E só quem tem ou já teve filho pequeno sabe que eles nunca mais param. Depois vem um adulto, no alto de sua maturidade, no auge de sua força física e entra numa sala de yoga com um cidadão ali na frente pedindo que ele fique de ponta cabeça. Uns pensam: “Ah, eu costumava ficar de ponta-cabeça quando era criança.” Outras, mais afortunadas, confiam-se: “Eu fazia parada de mão na ginástica olímpica.” Outros, mais valentes, segredam-se: “Dou conta.” Entretanto, todos os 99% restantes da sala de prática entram em pânico. “O quê?! Como é que é?! Assim, no meio da sala? Yoga não era só meditar e alongar?” Isto é o que ocorre quando se ensina sirsasana a quem nunca praticou yoga, ou a alguém que mal salta em halasana com os pés no chão, ou a quem nunca parou para estudar tadasana, ou a quem não consegue ficar pelo menos 1 minuto em adho mukha svanasana. Enfim, isto é o que ocorre quando se ensina sirsasana sem técnica alguma, apenas descrevendo-se o que se está fazendo com o corpo. Uma das coisas que mais me fascinam no Iyengar Yoga é que toda postura, sem exceção – toda postura – tem uma técnica precisa, objetiva e detalhada em níveis de execução e ajuste não apenas para fazê-la, como para prepará-la, desfazê-la e compensá-la. O que B.K.S. Iyengar criou ao longo de seus 76 de dedicação ao yoga (ele começou aos 14 anos e no ano passado comemorou 90 de idade) é de tirar o fôlego. Não apenas ele, bem como todos seus alunos, esses professores têm nos transmitido um método de se praticar yoga que está sempre se aperfeiçoando, mudando, ajustando-se e descobrindo-se. Descrever um asana não é a mesma coisa que transmitir a técnica do asana. Descreva-me, por exemplo, como comer. Você me diria: “Primeiro, pegue uma porção de comida com seu garfo do tamanho que caiba dentro de sua boca; depois, abra sua boca e, com o garfo, coloque a comida dentro dela; feche os lábios e puxe devagar o garfo para fora de sua boca, deixando a comida lá dentro. Agora, com a boca fechada, use seus dentes para mastigar a comida, sentindo que ela chega a um ponto em que seja possível engoli-la. Engula-a e agora espere que a digestão ocorra.” Bravo! A descrição não poderia ser mais precisa, não é? Qualquer pessoa com a habilidade de segurar um garfo e usar seus dentes conseguiria comer, não é mesmo? Mas, então, eu lhe pergunto: se fosse tão simples, por que muitos passam mal com o que comem? Por que muitos desenvolvem, no futuro, doenças relacionadas a uma má mastigação? Por que comem de boca aberta? Por que falam quando comem? É para beber junto com a comida? Por que se vomita? Por que se engasga? Você sabe escovar os dentes? Sirsana, de jeito nenhum, é apenas “fique de joelhos e, à frente deles, entrelace os dedos de suas mãos; depois, apóie o topo da cabeça no chão atrás delas; eleve os joelhos, caminhe em direção das mãos, salte, elevando as pernas em direção do teto e se equilibre”. Ensinar sirsasana deste jeito é o mesmo que pedir a uma criança para comer castanha quando ela ainda não tem dentes! A primeira vez, como aluna, que fiz sirsasana, foi assim. É por esta razão que disse acima que fui acometida por este asana, porque ele me atropelou, me machucou e me traumatizou. Com o tempo, e graças à necessidade de ensiná-lo a alunos que não conseguiam fazê-lo ou tinham medo de fazê-lo, fui descobrindo meios mais ou menos técnicos de ensiná-lo. Um professor sempre melhora sua didática à força de dar aulas. Por isso é que, no yoga, eu já escrevi que um professor mais velho e experiente é como vinho que só faz melhorar com o tempo. Pois bem. Daí chegou o Iyengar Yoga e eu fui entender qual é exatamente o ponto da cabeça que se apóia em sirsasana e como localizá-lo. Fui descobrir quais asanas fortalecem os braços e ombros. Fui aprender que asanas devo fazer antes de sirsasana para preparar o corpo e dar-lhe equilíbrio. Fui descobrir como me alinhar em sirsasana, usar a faixa, o tapete, blocos, bolster, cobertor, como saltar se estiver numa parede, numa quina, num canto, no meio da sala. Meu professor me mostrou o que fazer com cada parte do corpo no sirsasana, com os dedos dos pés, os ossos fêmures, o osso sacro, as cristas ilíacas, o púbis, o abdômen, as costelas, o osso esterno, os ombros, braços, o dedo mínimo da mão direita e tudo quanto mais eu for conseguindo absorver com o tempo! (Sim, Iyengar Yoga parece infinito.) Neste dia, o sirsasana aconteceu. Tenha certeza, descobrir um asana dentro de si é uma emoção indescritível, transbordante. E quando, na parede, eu já me sentia envolvida pelo sirsasana, veio meu professor de Iyengar Yoga e disse: “No meio da sala, vamos aprender a cair.” A cidadã Mayra, no alto de sua maturidade, no auge de sua força física, recuou que nem uma garotinha amedrontada. É que a gente desenvolve um “mecanismo”, depois de um tempo, para não cair mais de costas do sirsasana. Sim, damos cambalhota quando estamos aprendendo, mas, depois, caímos para trás apenas acidentalmente. Portanto, cair, propositadamente, uma, duas, três, dez vezes de costas do sirsasana não parecia animador. Se pudéssemos perguntar a um bebê se ele prefere cair a se levantar e andar, que reposta ele daria? Sinceramente, não sei. Uma criança cai tantas vezes que possivelmente não pensa no que seja não cair. A gente só desenvolve o medo da queda depois que aprende a ficar em pé. Se pudéssemos aprender sirsasana como aprendemos a andar, tudo seria mais fácil: já teríamos caído tanto, que ficar de ponta cabeça viria naturalmente. O difícil em sirsasana é que não funciona como na natureza funciona o aprendizado de andar. Só poderemos aprender a cair do sirsasana depois que conseguirmos fazê-lo no meio da sala. Eu sei, não parece natural, mas quem disse que os adultos são espontâneos? Depois que sofremos para subir em sirsasana é que vamos aprender a cair dele. A boa notícia é que existe técnica para isso também, tão precisa quanto para subir – o método Iyengar é formidável −, mas alguém só pode ir até o ponto de nos ensiná-la; nós é que temos que cair por conta própria. Foi isso que aconteceu comigo: tive que cair, não teve jeito e, quer saber? Foi super legal! Se alguém antes tivesse me dito que era tão simples... Os adultos costumam teorizar que o nascimento, para o bebê, é uma trauma. Nascer é ficar de ponta cabeça e respirar sozinho. Contudo, para mim, sirsasana é ficar em pé andando. Ter caído é que foi ficar de ponta cabeça para aprender a respirar sozinha. Namaste. http://www.navrattna.com.br/blogs/juveve/?p=143 |